segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A WikiLeaks não faz jornalismo, mas tem eficácia. Incomoda porque tem prestígio e sabe comunicar as suas denúncias.




Nos últimos anos o jornalismo - neste caso, "comunicação social" é um termo melhor, porque mais lato - tem procurado novas formas de expressão e novos suportes. No fim do dia, nenhum representou, ao menos para já, um caminho novo e credível, das redes sociais aos sites, ou, do lado do suporte, o computador ou sucedâneos como os tablets. Continuamos todos na incerteza do que será, de facto, o jornalismo de amanhã, apesar da certeza de que não será exactamente o de hoje.
Nos últimos tempos um nome se tem destacado, WikiLeaks, site que na quinta-feira divulgou quase 400 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque que contam uma outra parte da história que não conhecíamos. Uma parte que mostra a face da guerra que todos sabemos que existe, mas que não é fácil contar.
A WikiLeaks tem currículo: antes apresentou 70 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão; antes ainda colocou em linha outros sobre as operações e a prisão em Guantánamo; já lá se viram também os mails pessoais de Sarah Palin, assim como um vídeo de combate de um helicóptero americano a disparar indiscriminadamente, matando doze civis, incluindo dois jornalistas que se procuravam proteger, um dos quais tinha uma câmara na mão.
O fundador da WikiLeaks, Julian Assange, já teve mais amigos, mesmo entre aqueles que colaboravam com ele no site. Alguns dizem que está maluco (e determinadas conversas escritas que se têm conhecido entre ele e esses ex- -colaboradores deixam, pelo menos, dúvidas). As autoridades americanas chegam a acusá-lo de traição, por divulgar nomes de colaboradores das tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. Mas a verdade é que instituições independentes asseguram não haver conhecimento de casos de retaliação. Pelo menos até agora.
O australiano Julian Assange foi jornalista, mas hoje já não é, na verdade. Consegue a informação, que é uma das partes da actividade de um jornalista, mas não a trata. Despeja os documentos e dá-lhes alguma organização. Faz a denúncia - e fá-lo com poder global - mas com documentos em bruto, ou quase. Os documentos contam uma parte da história, mas falta o confronto com quem praticou os actos (de tortura, ou conhecimento de tortura, ou homicídios, sem os tentar parar) e com os que os sofreram. O que é difícil, em muitos casos mesmo impossível. No fundo, é uma base de trabalho e de investigação para jornalistas, ou para quem quiser contar as histórias. Mas o poder tem medo, porque aqueles testemunhos têm efeitos devastadores sobre o povo e sobre os próprios militares, expostos nas suas maiores fragilidades.
A informação, hoje, é um bem que pode chegar de diversas formas às pessoas. A WikiLeaks incomoda porque tem prestígio e sabe comunicar as suas descobertas. É eficaz. É uma espécie de reality show do jornalismo porque não tem mediação, é tudo em bruto e impressiona. Parece não haver interesses associados, apesar de ninguém saber quem são os financiadores. É uma virgindade que os outros meios não têm, até porque a narrativa da vida do fundador é andar escondido, pagar tudo em dinheiro, não deixar rasto, por medo, ao que tudo indica, dos serviços secretos. Os sites como o WikiLeaks não são o futuro - aliás, as denúncias em bruto não nasceram com a internet -, são uma parte do presente do jornalismo e da forma como o poder se relaciona com a informação.

por Manuel Queirós
Retirada do site do jornal IOnline*


*Para ver o artigo original basta clicar no título do post
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