terça-feira, 6 de março de 2012
Fez ontem um mês que um amigo morreu. No seu mural do facebook encontrei este texto. É lindíssimo. Para além de estar carregado de sentimento dá-nos uma visão real do sofrimento daqueles que perdem alguém que amam.


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
 As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
 É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
 Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
 Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
 O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

 Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
sábado, 3 de março de 2012
Isto de ter insónias é lixado. Dou por mim a ter conversas sentimentalistas sobre o passado e os erros cometidos. Isto quando sou privada do sono fico assim, meia avariada "dos cornos" (que é como quem diz, da cabeça). E, uma simples conversa, com um velho amigo, pode desenterrar muitas lembranças e muita saudades. A pouco e pouco vamo-nos apercebendo de como o tempo passa a correr e das coisas que ficaram para trás. Vamos ganhando amigos, perdendo outros... vamos moldando as nossas atitudes, perdendo caraterísticas que anteriormente nos definiam... vamos a pouco e pouco amadurecendo.A inocência e o imaginário dão lugar à dura realidade que é a vida e, a imaturidade da adolescência dá lugar ao profissionalismo e à ambição. Vivemos rodeados de confusão, stress, trabalho, rotinas. Absorvidos por um tempo que escassa a cada dia e, por uma juventude que a cada ano desaparece. Vivemos o amanhã, esquecendo o mais importante - o Hoje. Recordamos o passado chorando aqueles que perdemos. Aqueles que outrora fizeram parte da nossa vida. Aqueles com quem partilhámos histórias, aventuras, cusquices, beijos, amor.
E, o que acontece quando um dia acordarmos e tudo isto for uma doce lembrança? Quando a imagem no espelho for demasiado rugosa e distorcida para nos revermos nela? Quando a idade deixar de ser importante, porque a morte assumiu o comando? Será que a nossa percepção do que é vida se altera?
As Conversas da Sopa. Com tecnologia do Blogger.

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